2005-10-14

Carta aberta aos leitores de 'O Dispensado'

Caros amigos,

Na recta final do meu trabalho, tenho recebido inúmeros apoios. A avalanche de mensagens chegadas ao e-mail e ao post 'A frieza da estatística' comprova isso mesmo. Só tenho a agradecer tudo aquilo que tem sido dito e escrito. Um obrigado a todos muito sentido.
Muito embora me custe tomar e anunciar esta decisão, tenho a dizer a todos que o blog está prestes a chegar ao fim, tal como a dispensa de serviço que motivou a criação deste espaço descontraído e de reflexão pessoal sobre o tudo e o nada. Tudo o que tem um princípio, tem um fim. E a dispensa está a terminar. E com ela acabará inevitavelmente o blog. Passo a explicar.

A elaboração dos posts ocorreu todas as manhãs, logo após o meu despertar. A ideia era aquecer o aparo, neste caso o teclado, para mais um dia de trabalho caseiro. Às terças e quintas, pela hora do almoço, dirigia-me para o Sporting, onde tinha aulas de natação. Durante a curta viagem de Metro, lia o Metro que me serviu muitas vezes de inspiração para os posts diários. De resto, fontes de inspiração para um blog deste género é fácil de arranjar. Basta ler jornais, ver televisão e estar atento. Muuuiiiiito atento.
Os outros dias ficava em casa e ia apenas ao café. O silêncio do lar, o som das teclas do computador, os livros, as fotocópias, os cd-rw e os retratos do Renascimento foram a minha companhia durante dias, semanas, meses e anos. Para me aturar, tive sempre o carinho e o apoio incansáveis da minha cara-metade que, no final do dia, regressava do trabalho. Além deste porto seguro, encontrei outros de abrigo que me nortearam a navegação e a quem agradeço penhoradamente. Não preciso de nomear ninguém. Cada um sabe o papel que desempenhou a meu lado. Fica portanto à consciência de cada um.
Tudo foi passando e o trabalho aumentando de volume. A viagem ia decorrendo dentro da normalidade, pesem embora os sobressaltos por que passei ao longo destes três últimos anos, decorrentes da vida pessoal, familiar e profissional, tal como todas as outras pessoas ao cimo da terra.
Tudo isto é irrepetível. E por este motivo, considero que, nos moldes em que foi criado, 'O Dispensado' deve terminar. No entanto, admito que, no futuro, venha a (re)criar um novo espaço de diálogo com todos vocês mas que certamente não será 'O Dispensado'. Terá novo formato, nova designação, nova aparência e terá quantidade e qualidade diferentes. Melhor ou pior ? Depois se verá. O futuro do Dispensado ? Como dizia o outro: "Vou andar por aí !". Diga-se que foi a melhor frase que disse naquela altura.

Num daqueles momentos de maior solidão e nostalgia, quando a escrita se tornava mais penosa, decidi brincar com a 'dispensa' e fiz uns versos, inspirados nos de Fernando Tordo 'Adeus Tristeza', intitulados 'Adeus Dispensa'. É claro que o post de hoje se orgulha de publicar esses versos. Deram-me um gozo enorme.´Leiam lá !

Adeus Dispensa - letra do Dispensado, música do Fernando Tordo

Na minha vida tenho fé e boa sorte
Sou professor e serei até à morte
Aconteceu-me estar na Universidade
Tive a promessa de dispensa de verdade
Arte e Retrato tema bom daí surgiu
E a orientação foi aquilo que se viu

Na minha vida já escrevi alguns artigos
Esqueci a fome mas nunca os meus amigos
Nunca deixei de enfrentar os meus problemas
Só percebi que alguns deixaram muitas penas
Eu fiz conferências que afinal ninguém ouviu
Escrever a tese foi aquilo que se viu

[Refrão]
Adeus dispensa, até depois
Não voltarás daqui um ano nem sequer dois
Não há mais nada pra escrever e analisar
Chegou a hora de entregar

Para o meu trabalho muitos livros eu já li
Fotocópias, documentos transcrevi
Investigar em Portugal é um rombo
Com muito esforço na Gulbenkian e no Tombo
Um colarinho que afinal ninguém sentiu
E um par d’óculos foi aquilo que se viu

[Refrão]

Daqui a uns anos só Deus sabe a importância
Do exercício do ensino a distância
Enviar faxes, mails e telefonar
Não faltarão alunos pra classificar
Estarei por lá no Palacete até final
Pois o futuro será longe do Seixal


Obrigado pela atenção dispensada neste blog que quis, um dia, tornar-se indispensável.
Um abraço amigo e sentido do vosso
Dispensado

2005-10-13

Fuga de arte

Costuma ser notícia o roubo de obras de arte. Ninguém fala de 'fuga de arte'. Não é um conceito recente. Em Portugal, já se tem verificado nos últimos tempos, nos últimos anos, nos últimos séculos. O Dispensado esclarece. Um roubo, um furto, um assalto, toda a gente percebe o que é, lamenta, ninguém o pode evitar, mas por vezes conseguem-se recuperar as obras. O fenómeno da fuga de arte é muito mais grave do que isso. A fuga de arte consiste na saída de objectos de inegável valor artístico que, por falta de apoio do Estado, de mecenas ou de outras condições, se vêem na contingência de abandonar o país. É como se tivessem de fugir para outras paragens porque não recebem asilo condigno cá no burgo. Vamos a exemplos concretos. Foi o que aconteceu com a colecção de Champallimaud que acabou, na totalidade, refugiada na Christie's. É o que vai acontecer à colecção de Joe Berardo, uma das mais prestigiadas colecções de arte contemporânea, que está a ser vítima de forte assédio por franceses, americanos e japoneses. Está em curso mais um processo de fuga de arte. Os museus, as colecções privadas, bem como as instituições que tutelam o património nacional mantêm um silêncio ensurdecedor sobre a matéria.
Se a moda da fuga de arte pega, arriscamo-nos a ver uma igreja, um conjunto de telas ou um grupo escultórico da nossa lavra num qualquer quintal de um milionário estrangeiro que ache muito nice ter umas coisas antigas em casa. É certo que, neste caso, o Estado até ganha uns trocos e o terreno da igreja, por exemplo, ainda dá para arder no Verão ou para construir um condomínio.
Legislem sobre o assunto. Impedir a fuga de arte tem de ser um desígnio nacional. Não basta pôr bandeiras à janela. Há que mobilizar as gentes para este género de causas. Não permitam mais fugas de arte. Fugas artísticas só as de Bach.

2005-10-12

Livro 2006

É inaugurada hoje a Liber 2005, a feira internacional do Livro, em Madrid. Este ano marcam presença mais de 6o0 editoras nacionais e estrangeiras. Como se pode ver no site oficial do certame, Portugal compareceu apenas com 3, apenas 3, editoras. E não estamos a falar de grandes tubarões. Esses, se calhar, consideram o evento de pouca importância. As ilustres empresas editoriais representadas são a Constância, a IBS Iberia e a Quidnovi. O Dispensado dispensa-se de fazer comentários.
Parece que, em Portugal, se prefere a feira de Frankfurt. Mas, será que uma coisa impede a outra ? Não seria, porventura, mais vantajoso marcar presença em Madrid e deixar Frankfurt para segunto plano ? Afinal de contas, Frankfurt é mais longe, envolve mais gastos e Espanha nem sequer apresenta a barreira da língua.
O problema está mesmo no modo como a língua portuguesa é tratada no nosso país. Claro que a língua não baixa o défice, a língua não contribui para o combate a evasão fiscal e a língua não contribui para o PIB. Mas a língua pode fazer com que o défice baixe e com que o PIB aumente. Tome-se o exemplo de Espanha. Nuestros hermanos já perceberam há muito que, através da língua, essencialmente o castelhano, se pode estabelecer e fortalecer laços diplomáticos, e depois desses os comerciais, com os vários países mundiais, de preferência os latinos, com Brasil e Portugal incluídos.
Os espanhóis já perceberam que para o estabelecimento desses elos de ligação não basta fechar os olhos, legalizar imigrantes em barda, adoptar o discurso do 'politicamente correcto' e assobiar para o lado. Em Portugal é o que se tem feito. Há que perceber que a língua portuguesa e a leitura são patrimónios que devem ser preservados e difundidos. Sobretudo junto aos tais países latinos para que o comércio, as exportações e os mercados se desenvolvam, numa época em que a UE se encontra em recessão. Há que diversificar os riscos e aumentar os níveis de concorrência. O Dispensado está a falar bem, não está ? Mas em Portugal, ainda há um caminho longo a percorrer. Marcar presença na Liber 2005 não resolvia tudo, mas indicava uma inversão no sentido de marcha. Se é que existe um sentido nesta marcha...
De acordo com o inquérito de hábitos de leitura em Espanha, um em cada quatro abre um livro por dia. Em Portugal, um em cada quatro não abre um livro por dia.
Fica a sugestão do Dispensado: a organização de um certame intitulado Livro 2006. Depois se discute se é em Lisboa ou Porto. Espaços temos. Até estádios de futebol novinhos e sem uso. Haja esperança. Depois do Euro 2004, venha o Livro 2006 !

2005-10-11

Repensar Peter

Após 14 anos de acesa guerra civil, a Libéria elege hoje o Parlamento e o Presidente. Há pelo menos três candidatos. Um deles o conhecido futebolista George Wheah, antigo jogador do PSG de Pauleta, do Chelsea de Mourinho e do AC Milan de Rui Costa. O Dispensado designou os clubes desta forma para que os leitores, que não acompanham o fenómeno futebolístico, possam saber que clubes são.
Misturar política com futebol não é boa política. O precedente aberto no Brasil com a nomeação do Pélé como ministro do Desporto tem servido de exemplo. O homem marcou mais de mil e duzentos golos durante a sua carreira. Isto não significa que seja um bom ministro, que tenha a capacidade de gerir um ministério e que consiga resistir ao populismo de vedeta desportiva. O problema coloca-se, pois, com Wheah. O facto de ter sido um goleador nato e um belíssimo jogador de futebol não deveriam constituir argumentos para uma candidatura presidencial. Os seus projectos, as suas propostas, sim. Mas separadamente dos chutos, dos golos e das porradas no Jorge Costa.
Mas a descrença na política, a idolatria com o futebol e o vazio do debate de ideias e projectos fazem com que Wheah apareça como sério candidato à vitória na Libéria. O Dispensado espera nunca ver semelhante 3º mundismo em Portugal. Será que ninguém conhece o princípio de Peter ? In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence dizia o ex-Dispensado da Southern California e da British Columbia. Será que teremos de mudar a definição do princípio para : In a hierarchy, every employee is a stick for every single work. ? O Dispensado medita.

2005-10-10

Quem perdeu as eleições ?

Inevitavelmente, o post de hoje fala de eleições autárquicas. Neste acto eleitoral que decorreu com normalidade, até com uma violação da lei, não interessa saber quem ganhou. Quem ouvisse os discursos, mais ou menos acalorados da noite de ontem, ficava com a estranha sensação de que todos ganharam: o PSD reclama para si a vitória porque obteve mais câmaras, mais assembleias, mais juntas e mais votos; o PS diz que manteve o resultado de há quatro anos e que, portanto, não perdeu as eleições, mesmo que esse resultado passado tivesse sido sinónimo da demissão de Toneca. A CDU ganhou porque ganha sempre e nunca perdeu um acto eleitoral desde que há democracia em Portugal. Se perderam uma ou duas câmaras, também ganharam outras tantas e, portanto, é sempre um sucesso. O BE, com fasquia baixa, ganha sempre porque os objectivos foram atingidos. Por conseguinte, gritam vitória. O CDS/PP diz que reconstituiu a malha autárquica no país, mas o Dispensado está convencido que essa malha está larga e com casas muito abertas. Se alguém fosse à pesca com essa malha, os peixes fugiam todos pelos buracos. Mas, ganhou no Porto, Sintra e Cascais.
Quem perdeu as eleições, é que era importante apurar. Será que a frieza dos números e das estatísticas servem, agora, para dizer o que se passou ? Não. As estatísticas não nos dizem que, por exemplo, a democracia saiu a perder com tanta abstenção e com as vitórias imorais de Morais e coª. Só o incompreendido do Avelino perdeu. Olha, se calhar foi ele o grande derrotado da noite de ontem. Ou será que a consciência cívica e democrática em Amarante está acima da média e é mais forte do que em Oeiras, Felgueiras e Gondomar ? Será esse o motivo pelo qual as televisões e jornais deram tanto destaque a estas câmaras, eleitas por um povo esclarecido que elege quem alegadamente os rouba ? Só pode ser por isso.
Além disso, a democracia saiu enfraquecida porque está, cada vez mais, colada ao fenómeno futebolístico, o que diz muito também das sociedades de hoje. Os slogans de campanha, os gritos das Jotas, o comportamento dos militantes são os das claques da bola e os da malta que vai para a rua fazer a festa do título. Isto significa que a política não é capaz, por si, de gerar mecanismos de coesão e de movimentar as massas, tal como o futebol. Não seria preferível criar os seus próprios slogans, os seus próprios gritos de guerra e os seus próprios ícones ? Futebolizar a democracia é tratar o país ao pontapé ! E o nosso país, precisa de tudo, menos de pontapés e golos na própria baliza, arriscando-se também a estar em offside. Vá lá que o apoio do Pintinho ao Assis não resultou. Separem-se as águas. É mais saudável e a democracia agradece.

2005-10-06

A frieza da estatística

Um ano depois de ter iniciado a sua labuta ingrata, o Dispensado está prestes a cumprir os seus objectivos. A estatística, por alto, diz que foram precisas mais de 600 páginas, 970 parágrafos, 11834 linhas, 130128 palavras, 817475 caracteres para chegar à meta desejada. Não se contabilizam aqui os watts de energia gastos, os litros de suor dispendido, os centímetros de calos a mais nas pontas dos dedos de tanto teclar, o aumento das dioptrias, o dinheiro investido... Por isso, a estatística vale o que vale. Neste caso, é a transformação em número de um trabalho incontável, inumerável, incalculável. Fica o trabalho e ficam os números. Mas a realidade é bem diferente. A realidade entre 6 de Outubro de 2004 e 6 de Outubro de 2005 foi muito diferente. Por isso é que o Dispensado não gosta de números. Não nos dizem nada. Apenas simbolizam algo. Não se sabe bem o quê.

2005-10-05

A Portugueza

A Portugueza
Henrique Lopes de Mendonça / Alfredo Keil

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo,
O esplendor de Portugal
Entre as brumas da memória
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.
Às armas! Às armas!
Sobre a terra e sobre o mar!
Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

A Portugueza começou por ser um hino dos estudantes e jovens militares que tentaram nos anos de 1890 e 1891 exaltar o patriotismo nas principais cidades do país: Lisboa, Porto e Coimbra. A letra da música talvez tenha chegado a ser adaptada com carácter mais interventivo uma vez que, segundo a lenda, o verso 'contra os canhões' teria originalmente sido 'contra os Bretões' numa alusão ao humilhante Ultimatum Inglês. Só mais tarde, já em 1911, se decidiu adoptar A Portugueza como hino nacional até aos dias de hoje, com algumas tentativas fracassadas de o abandonar e criar um novo com nova letra e novo espírito. A 'Grândola' ainda chegou a ser falada. Deixe-se A Portugueza como está. O hino está bem. O país é que talvez tenha de mudar.
Assim termina o post de hoje, que não foi escrito de pé como a ocasião exigia. Não é sinal de pouco patriotismo. É sinal de cansaço desta República que está longe de alcançar os objectivos e os ideais propostos pelos republicanos nessa madrugada de 4 para 5 de Outubro de 1910.

2005-10-04

A inutilidade de Lepanto

Para os mais esquecidos, diga-se que a batalha de Lepanto foi travada, precisamente, a 7 de Outubro de 1571 entre as forças da Santa Liga (Papa Pio V, Espanha, Veneza, Nápoles e Ordem de Malta entre outros), e as tropas do Império Otomano. Esta batalha resultou numa pesada derrota para os turcos que viram o seu poderio no Mediterrâneo a desvanecer-se, com grande parte da sua esquadra no fundo. A vitória da Santa Liga conseguia assim impedir o avanço impiedoso dos muçulmanos na Europa, embora tal progressão se fizesse sentir em épocas posteriores, nomeadamente, no início do século XX, um dos factores que precipitaria a I Guerra Mundial.
Para que serviu Lepanto ? Para nada. Na mesma semana que se comemoram os 434 anos dessa batalha, a Turquia obteve ontem a confirmação da União Europeia para poder iniciar as suas negociações de adesão, depois de os governos terem alcançado, a muito custo, um acordo sobre as modalidades de enquadramento. O governo austríaco acabou por aceitar o texto do mandato de negociação, embora exigisse certos ajustes. Mas valerá a pena integrar um país como a Turquia na UE ? Se falamos de União entre os estados europeus, como integrar um país da Ásia Menor ? Qual o conceito de Europa que está subjacente à UE ? Ou será que temos de mudar a designação de UE para UEEAAQDJPCPGNB (União de Estados Europeus e alguns dos asiáticos que dão jeito por causa do petróleo, do gás natural e do Bósforo) ? Não será que as tropas da Santa Liga, para não falar do nosso Afonso Henriques, teriam motivos mais do que suficientes para manter os turcos à distância ? Ou será que a amnésia é tal que ninguém se lembra do que sucedeu a 20 de Julho de 1974, com o massacre sangrento das tropas turcas em Chipre, e a ocupação de grande parte dessa ilha ? O que diriam os Cruzados, mais Carlos V, se regressassem e vissem a Europa a abrir as portas ao inimigo ? É caso para dizer que Lepanto, batalha mítica para o desenvolvimento da Europa enquanto unidade política, económica e social, foi inútil. Ainda bem que temos 10 anos para negociações. Ainda bem que basta um 'não' de um dos Vinte Cinco para chumbar a adesão da Turquia. O Dispensado não sabe qual a posição do Estado português. O Min. dos Negócios Estrangeiros está satisfeito e diz que tal integração turca irá causar mossa em Bin Laden. Os restantes estados europeus não deverão ir em danças do ventre. Valha-nos um 'non rond' ou um 'nee' qualquer para inviabilizar a dormida com o inimigo. A História fala por si.

2005-10-03

Os calipsos


O calipso é o termo popular para designar 'eclipse', palavra tão utilizada no dia de hoje. Não é brincadeira do Dispensado. Foi mesmo ouvido no templo da burocracia nacional: a Loja do Cidadão. Pois foi. O Dispensado foi tratar de assuntos administrativos e dirigiu-se a esse local dantesco que é a Loja do Cidadão, onde o povinho se acotovela para garantir uma senha que lhe dá acesso a um guichet e uma mulherzinha, mal com a vida, para o atender. Se tiver sorte, é atendido por uma funcionária que diz para a outra, durante o seu tempo de serviço: "Ó filha, tenho de ir ver o calipso, se não, só em 2028 !". Olhando para a enorme fila que o rodeava, o Dispensado pensou: "é o que me vai acontecer... se não for atendido agora, só em 2028." Mas, vá lá, a dita mulherzinha lá atendeu o Dispensado antes de ir ver o calipso. E o Dispensado evitou um calipso cardíaco por causa da fila que se adivinhava interminável.
O Dispensado até percebe a euforia para ver calipsos, pois também já os viu, inclusive um da lua, por voltas das 3 ou 4 da manhã. Mas, ultimamente, os calipsos têm-se sucedido em catadupa cá no burgo e, portanto, já não deveria causar tanto espanto. Registem-se pelos menos dois dos mais recentes: o calipso do José Barroso em 2004 e o calipso das promessas eleitorais do Eng. José. Infelizmente, afigura-se nas próximas semanas um outro de outro José: o calipso de Peseiro como timoneiro do Sporting. E este calipso nem precisa de óculos especiais. É visível a olho nu. Não é preciso pois esperar por 2028. Pelo menos espera-se.

2005-09-30

Ensino Superior 2035

O famigerado acordo de Bolonha vai ser implementado em Portugal mais ano, menos ano. Para os mais distraídos, o acordo de Bolonha, posteriormente revisto em Praga, prevê a realização dos cursos de licenciatura e pós-graduação (mestrados e doutoramentos) do seguinte modo: a licenciatura terá uma duração média de três anos, os mestrados dois e os doutoramentos quatro. Esta fórmula vem substituir a antiga que previa, em média, quatro anos de licenciatura, quatro de mestrado e quatro a oito anos de doutoramento. Qual das duas modalidades vos parece mais acertada ?
Se ao menos a versão de aviário promovesse maior especialização, maior empregabilidade, maior sabedoria, o Dispensado não se importava de aderir ao projecto dadas as aparentes vantagens. Mas não é isso que vai acontecer. Os cursos foram barbaramente cortados para ficarem mais baratinhos à Administração Central e para promoverem a ignorância e a formação concentrada ou light como está na moda.
Se há 30 anos atrás o sistema previa, em média, cursos de cinco anos, mestrados não existiam e os doutoramentos duravam pelo menos 8 a 10 anos, o que dizer do estado do Ensino Superior em 2035 ? Se calhar, a coisa está de tal maneira abandalhada que, para facilitar o processo de concessão de graus, bastará enviar um sms para qualquer das instituições que o faça, e atenção que nessa altura qualquer centro de explicações ou instituto politécnico o poderá fazer, e depois é só printar em casa um ficheiro pdf com o grau correspondente ao preço que se pagou por esse sms. Eis o milagre do choque tecnológico que ensina, educa e forma as pessoas rapidamente, tornando-as mais capazes de enfrentar os desafios económicos, sociais e culturais da sociedade europeia. Curso à bolonhesa não cheira ao Dispensado. Ou melhor, cheirar até cheira...
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